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um "guia" de leitura [the undercommons]

7 de set.
7 min de leitura

[permanentemente em construção]



Tudo de subcomum: 

planejamento fugitivo, estudo negro.


de Fred Moten e Stefano Harney


***


uma pergunta que retornou aos autores, algumas vezes, foi como chegar nesses subcomuns? — como se fosse mesmo um lugar. falar em “os subcomuns”, ao mesmo tempo que se fala de fugitividade e fuga, pode dar essa falsa impressão. talvez isso fique mais nítido quando passamos para outros textos que não os reunidos aqui, mas o fato é que subcomum não é apenas substantivo. definitivamente, não é algo definido por um artigo — se pensarmos que “the” remete primeiro ao “under”, temos algo como: o que é sub antes de importar o comum, os comuns. uma indefinição que tem a ver com o fato mesmo de que se está por baixo do definido, talvez com intenções de sabotá-lo, quem sabe. não há lugar algum chamado “os subcomuns”. há práticas, relações, movimentações subcomuns; há exercício de subcomunidade, coisas assim. quando olhamos para a universidade, por exemplo, olhamos para algo que, de uma maneira ou de outra, aparece para nós com certa carga normativa. há sempre uma maneira apropriada da universidade existir e de existirmos nela, é o que não nos cansam de dizer de mil formas diferentes. por isso, quando se fala “no subterrâneo da Universidade, nos subcomuns”, a espacialidade pelo nome conjurada, aqui, tem mais a ver com o desvio em relação a essa presença normativa. isso significa, portanto, que não há subcomuns debaixo de nada. subcomum é o que não queremos ver porque aprendemos a não querer ver. não é uma coisa específica, é a inespecificidade da coisa. ou seja, é precisamente não saber que lugar é esse e parar de se preocupar com isso.


de todo modo, a expressão surge como resposta à ideia de uma política dos comuns [commons] como forma mais racional e verdadeira de gerir o que é nosso, o que é público, o que não deve ser privatizado. o comum, a comunidade só interessa aos autores como dissolução da unidades sociais, como meio de destituição da própria noção de individualidade que alimenta o individualismo, do próprio desejo de ser um indivíduo, de ser alguém. mais importante, para Moten e Harney, é a possibilidade de deixarmos de ser o que quer que seja na mistura com o resto, na relação com o resto, a possibilidade de perdermos a noção de nossas fronteiras, a crença em nossas fronteiras, de não sabermos mais onde começa eu e termina outro, de não saber quem exatamente pensou isso que foi pensado e que aparece no texto em co-autoria, enfim: perder a própria noção de autoria, dissolvida no “co-”. se é relativamente tranquilo, às vezes, saber de quem está vindo o que na escrita de Moten e Harney, também há muitos momentos de pura indistinção. momentos, aliás, que nos fazem pensar se a identificação tranquila não era apenas ilusão de óptica. o resultado desse contínuo se deixar perder na alteridade que se torna indistinguível da identidade é uma série de ensaios indefinidos e indefiníveis, sem fronteiras claras — nada, aqui, importa como propriedade, não importa “o conceito de subcomuns de Fred Moten e Stefano Harney”, não importa a eventual aplicação de uma teoria, tese, ideia. o livro não é a preparação de um terreno simbólico-comercial em que poderemos identificar certas coisas como subcomuns, outras não (uma filosofia subcomum, uma sociologia subomum, ou mesmo uma política subcomum). isso fica para quem só consegue ler o pensamento como justificação teórica de políticas públicas.



“politics surrounded” [“a política está encurralada”]


inevitável começar com uma ambientação do termo “política”: por padrão, ele é usado de maneira pejorativa-crítica pelos autores, variação de certas tradições da antipolítica em que seu uso é equivalente ao de “governo”, “gestão” ou “política institucional”. para quem se importa excessivamente com nomes, pode-se dizer que pouco importam os nomes: chame o que eles chamam de “política” como quiserem. Rancière chamava de “polícia”, por exemplo — e assim a palavra “política” ficava preservada para atos de insurreição. o que importa é o deslocamento da sensibilidade, do pensamento também — dar-se conta de que nos ensinam, desde sempre, a sobrevalorizar formas de governo (do outro, de si) que se confundem, por exemplo, com a própria ideia de cuidado. e se não houver nada em nós a ser alvo de governo? a necessidade da gestão é o problema.


progresso, uma variação (talvez) do aprimoramento incessante que dá o ritmo geral da existência: mais gestão para mais melhorias, melhoria das melhorias, sempre em movimento. quando será que o problema que nós somos — ou que invariavelmente carregamos, ou onde estão sempre nos lançando — será enfim resolvido? quando vai acabar a fome o desemprego o extermínio? 2045? 2089? o racismo vai demorar mais um pouco, certo? primeiro as cotas, depois parar com as matanças, depois parar com o saque permanente, depois parar com tudo aquilo que faz com que estudar não seja algo tão simples assim — faltam quantas doses ainda dessa nossa democracia? quem começou, aliás, o problema?


voltando: eles começam mencionando esses filmes em que o colonizador aparece cercado de indígenas, como Ao rufar dos tambores de Ford, falando de como a prática colonial é imaginada como autodefesa (podemos dizer, aliás, que isso é mesmo a norma da racionalização da violência colonial: sempre retroativamente apresentada como resposta a uma ameaça — resposta material a uma ameaça fantasiada). por que começar assim para falar de política-gestão? o administrador, o policial, o supervisor, o capitão do mato, o sociólogo, o agente de fiscalização, o especialista na TV — eles respondem a que perigo? o que Moten e Harney fazem, nesse começo, é filtrar, na imagem do forte cercado, o que de fato é mentira: que a agressão tenha começado nesse cercamento. o cercamento será uma verdade: sim, ao redor do colonizador, abunda uma vida ingovernável, fora-da-lei, e podemos, aqui, trazer uma série de adjetivações injuriosas do discurso racial: uma vida preguiçosa, irresponsável, barulhenta, vagabunda… o que há de errado em não querer trabalhar, por exemplo? o negro é preguiçoso? o baiano é preguiçoso? por que diabos alguém iria querer o oposto dessa preguiça? (a resposta, simples: colonização, colonização de si)


sim, há um cerco, o colonizador sempre esteve encurralado — seu medo é real e faz sentido originalmente. ele está diante de uma liberdade em relação à sua própria civilização. o que ele faz a partir disso? Montaigne e Descartes viam, por exemplo, nesse contato com a exterioridade não-europeia, a oportunidade de uma relativização de seus mundos, normas e valores. o colonizador vai por outro caminho: ele se liberta de sua própria civilização em nome dela, em nome de sua quase paradoxal absolutização, torna-se bárbaro, violento para exaltar seu próprio mundo. o colonizador sempre esteve encurralado — isso que lhe cerca é o que os autores chamam de negridade [blackness], algo que voltará algumas vezes ao longo dos ensaios. por ora, basta pensar que negridade = ingovernabilidade, a selvageria extra-muros, o que está de fora da clausura e no interior da clausura porque colonialismo é também esforço de governar o que não se pode governar. bem, o colonizador, agora, mas nem sempre, deu lugar a uma multidão de outras funções, não tendo inteiramente desaparecido — funções que, em parte, assemelham-se formalmente, a saber: todas as profissões que envolvem gestão, porque gestão é o modo como se tenta responder ao desordenado, à desordenação, a tudo que parece não querer andar na linha, tudo de ineficiente, improdutivo, tudo que obstrui o progresso, o acúmulo, o futuro. 


(em um texto a ser traduzido e lançado em português em breve, chamado tudo que a gente tem são as amizades, os autores dizem o seguinte: “O professor universitário, como talvez todo professor, é um gestor de estudantes. E quer saber como a gente sabe que é isso que somos? Porque a classe que em relação a nós é classe trabalhadora entrou em greve! E seria tosco pensar que a greve foi apenas contra patrão, reitor. Estavam em greve também contra nós, intermediários, seus gestores”.) 


e o pensamento crítico — o discurso crítico —, quando está a serviço do aprimoramento das instituições, da produção de mais democracia, de uma democracia melhor ainda só que sempre nos termos desta democracia, está a serviço de quê? de quem? de nós, é claro, mas apenas sob a condição de sermos um nós muito que bem comportado, imagem e semelhança do sujeito crítico, ou fantasia-objeto que o sujeito crítico tem de nós. nós não podemos ser qualquer coisa, nada, o que bem quisermos na instituição aprimorada, na democracia democratizada — quanto tempo leva para a nossa celebrada inclusão ser xingada nos corredores do pensamento crítico? e ainda há, claro, toda a “selvageria” de quem ainda não recebeu o benefício da inclusão, esse mundo externo que ou assusta ou é objeto de estudo e, sendo objeto de estudo, deixa de assustar ao menos momentaneamente, até que assuste de novo porque o objeto de estudo, fora da romantização acadêmica, pode ser qualquer coisa dentro do espectro da humanidade. pode até mesmo, quem sabe, mentir para o antropólogo e inventar um mito e uma vibe mágica só para se ver logo livre dele.


***


os autores oferecem o livro negando que ele seja posicionamento, que esteja posicionado em algum ponto do espectro político. por que isso? a pior maneira de ler algo que existe para nos deslocar é usar um sistema pronto de coordenadas. é assim que começamos as coisas, claro, mas é preciso sempre um esforço, ao menos, no sentido de abrir qualquer sistema que seja para uma relativização, uma desordenação. vamos fingir que não sabemos o que significa a palavra “esquerda”, por exemplo. será que podemos lidar com o que os autores têm a dizer sobre a lógica das políticas públicas sem achar que é coisa de direita? o próximo ensaio é sobre universidade, eles dizem: “a única relação possível com a universidade, em nossos dias, é a relação criminosa”. será que podemos levar a sério essa afirmação?

 
 
 

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